Parecia uma crise, mas era só o fim de uma ilusão.
Essa frase se repetia na minha mente, que buscava um significado mais amplo para ela. Parecia muito importante que nela coubessem todos os sentimentos contidos nos anos de minha vida.
Eu cresci à espera da realização do sonho e do término do sofrimento. Eu tinha muitos sonhos, não era um só. Mas eles sempre foram coisas simples, como ter minha profissão, minha casa, uma família e a certeza de que estaríamos nos apoiando. E assim foi. Porém, o sofrimento nunca passou. Nunca deu uma trégua. Ele estava lá, escondido nas traições dos namorados, presente na incerteza de que eu fecharia o mês com as contas pagas, mas abafado pela felicidade de ter podido comprar algum equipamento especial para o meu trabalho. No escritório, no emprego, nas relações interpessoais, lá vinha o sofrimento. Ele era a incerteza, a dúvida, a insegurança. Será que poderei pagar a secretária? Será que serei despedida novamente? Serei julgada se disser o que penso? E se não disser? Serei chamada de omissa?
O sofrimento se chamava ansiedade. E ansiedade é o medo daquilo que não aconteceu... Ainda. Mas os ansiosos temem o que pode acontecer, baseados em experiências passadas negativas. Eu temia coisas que nunca havia vivenciado, como perder minha própria casa, sendo que nunca havia possuído uma. Quero dizer, uma que fosse minha, comprada com o meu dinheiro ou não, mas que contivesse meu nome completo na escritura. Não ter um teto digno, ser despejada, não ter dinheiro para pagar aluguel, condomínio, IPTU e Cemig. Em segundo lugar, meu mais recorrente pesadelo era não ter dinheiro para pagar pessoas. Sim, na minha escala da vergonha, o meu "Índice da Vergonha", com o maior número de pontos vinha a falta de um lar. Em segundo lugar, estava o calote em pessoas físicas: secretárias, funcionárias e prestadores de serviço.
Não havia passado por nada disso, mas era sempre no sufoco que fechava o mês. Sempre devendo algum para o próximo mês. E não havia onde buscar ajuda, a não ser procurar mais um emprego, para se juntar aos meus dois fixos. Com o tempo, o cansaço me mostrou que era o fim. O fim de uma ilusão. Já não havia lugar para tanta frustração, então, o jeito era encarar a realidade e admitir: faltava amor na minha vida. Faltava um companheiro, um parceiro, um cúmplice.

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