Sobre o incêndio na casa noturna na cidade de Santa Maria, que deixou mais de 230 pessoas feridas ou mortas.
Esta não é a primeira e, provavelmente, não será a última tragédia que poderia ter sido evitada, caso as pessoas envolvidas tivessem mais consciência de onde estavam se metendo, ao se amontoar numa casa de shows lotada e sem estrutura para receber tantas pessoas. No calor da diversão, já sob o efeito animador de drinks, encontros, beijos e muita alegria, pouca gente, ou ninguém, se deu conta de que a casa era pequena, que o isolamento acústico - como na maioria das casas noturnas - era feito de material altamente inflamável.
Comemorações devem ser muito bem planejadas, com seguranças em portas de festas, que revistem - infelizmente é necessário - quem entra: seja o funcionário, o frequentador ou a banda convidada. Há guria que faz escândalo por ser revistada, ou cara feia para o segurança... Mas cara feia, pelo menos, não mata. Provavelmente, após o fim da festa, a guria nem se lembrou mais de ter sido revistada. Acordou em sua cama, sã e salva.
Ontem, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, os alegres frequentadores de uma casa noturna não tiveram a mesma sorte. Não perceberam que um dos integrantes da banda que se apresentava, no local, resolveu acender com fogo, um sinalizador. Um desses usados em acampamentos e lugares abertos, para casos de emergência. Acontece que a casa noturna, lotada, tinha o isolamento acústico feito de isopor, papelão e espuma - todos esses materiais altamente inflamáveis. O fogo do sinalizador se espalhou pelo teto do local, aquecendo e elevando a temperatura a mais de 100oC! Com isso, o oxigênio foi sendo consumido rapidamente pelo fogo e as pessoas, desesperadas, tentaram sair do local. Fugir, escapar, sumir, ir para qualquer lugar longe do calor, da falta de oxigênio e do tumulto.
Como tumulto gera tumulto, sem responsáveis para indicar saídas de emergência, sem instruções sobre como proceder em casos de emergência, os alegres frequentadores esqueceram-se das duas regras básicas de um soldado: não deixar seu amigo para trás e seguir as ordens dos superiores. Ao invés disso, escolheram o "cada um por si" e, pouco a pouco, como numa câmara de gás em Auschwitz-Birkenau, foram intoxicados por gás gás carbônico e monóxido de carbono. Outros, tentanto escapar, pisotearam e foram pisoteados por seus amigos de festa, agora, seus "brothers in arms", pois, o que aconteceu na casa noturna, em Santa Maria, foi uma guerra pela própria sobrevivência, na qual poucos sobreviveram.
Que fique a lição para os organizadores e para os futuros frequentadores de festas mal organizadas: não arrisquem suas vidas por tão pouco.
Que fique a lição para aqueles que chamam médicos de delinquentes e que adoram falar mal da classe: a vida de todos depende dos médicos, caso chegue-se vivo ao hospital.
Que fique a lição para as autoridades fiscalizadoras: nenhuma propina trará essas pessoas que morreram de volta. Conviver com esta "vista grossa" será o destino de vocês, pois uma coisa ficou muito clara: havia gente demais, segurança de menos, extintores de menos, saída de emergência de menos e negligência de sobra.
Aos paramédicos, bombeiros e médicos que trabalham, ainda, na tragédia: parabéns pela rapidez com a qual responderam aos chamados, ainda que o Facebook tenha sido o primeiro a saber da tragédia, uma vez que as pessoas na casa noturna postaram fotos da tragédia que estava por vir, antes de chamar o 190.
- Ana Lima
27/01/2013
